O que está por trás da ofensiva de Lula para frear as negociações do Uruguai com a China

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou nesta quarta-feira (25) no Uruguai com uma missão principal: tentar evitar que o governo de Luis Alberto Lacalle Pou feche um acordo de livre comércio com a China. Na avaliação do governo do petista, o acordo dos uruguaios poderia representar a “destruição” do Mercosul. Após o encontro em Montevidéu com Lacalle Pou, Lula saiu com a sinalização de que o governo uruguaio está disposto a negociar com os demais países do bloco da América do Sul sobre o acordo bilateral com os chineses.

Criado em 1991, o Mercosul, é composto por Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. A Venezuela foi integrada ao grupo em 2012, mas está suspensa desde 2016 por descumprir o protocolo de adesão. A Bolívia é um membro associado.

Entre outros pontos, o tratado do Mercosul impede que os países-membros fechem acordos comerciais e alfandegários de forma isolada com outras nações. A ideia é que a unidade do bloco não pode ser mantida se um dos seus membros der condições comerciais mais vantajosas para um país de fora do grupo.

Nos últimos dias, no entanto, o Uruguai vinha sinalizando que estava prestes a fechar o acordo bilateral com Pequim, o que faria com que as tarifas e cotas para importação entre os dois países fossem eliminadas. A medida, no entanto, é criticada pelos demais integrantes do Mercosul. Existe o risco de produtos chineses sejam “maquiados” no Uruguai e circulem no Brasil com as vantagens concedidas apenas às mercadorias dos países-membros.

Antes do encontro de Lula com Lacalle Pou, integrantes do Palácio do Planalto já haviam se movimentado para elencar as contrapartidas que o governo brasileiro pretende oferecer ao governo uruguaio para dissuadi-lo de aderir ao acordo com os chineses. Entre elas, está a retomada de obras de infraestrutura que interligam ou beneficiam o Brasil e Uruguai; o retorno das contribuições do Brasil para um fundo de fomento a projetos dentro do bloco; e a promessa que os brasileiros não farão mais reduções unilaterais de tarifas de importação de produtos de fora do bloco.

Integrando a comissão de Lula na visita ao Uruguai, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta semana que um acordo com a China fora do Mercosul poderia impactar, por exemplo, o setor industrial brasileiro. “Não temos conhecimento dos termos em que está sendo negociado o acordo da China com o Uruguai. Mas esse tipo de coisa não é novo. É uma visita para fortalecer o Mercosul. Eu acredito que a América do Sul, o destino dela de sucesso passa pelo bloco econômico. Quanto a isso, eu não tenho a menor dúvida”, disse Haddad.

Lula defendeu o fortalecimento do Mercosul durante visita ao Uruguai 

Na agenda em Montevidéu, Lula buscou sinalizar ao presidente do Uruguai que o fortalecimento do Mercosul será uma das prioridades do seu governo. O movimento faz parte da estratégia que Lula tem adotado na sua primeira viagem internacional, que também passou pela Argentina. O novo governo brasileiro quer buscar protagonismo internacional por meio da integração com os países da América Latina.

“Quando assumimos a Presidência pela primeira vez, em 2003, nós decidimos que o Brasil, por ser o maior país da América do Sul e com a economia mais forte, deveria ter uma política generosa com os seus parceiros que tivessem menor suporte econômico. E assim fizemos com todos os países da América do Sul. Nesse período, a balança comercial entre o Brasil e o Uruguai teve um superávit para o Uruguai de 8 bilhões de dólares. Isso porque fazia parte da nossa visão contribuir para que todos os países crescessem juntos”, disse Lula depois do encontro com Lacalle Pou.

Antes da visita ao Uruguai, Lula já havia repetido esse discurso durante o encontro da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), em Buenos Aires, na Argentina. “Vamos juntos recriar e fortalecer o Mercosul, a Unasul. Sozinhos somos fracos. Juntos, podemos crescer e desenvolver a região”, disse Lula.

Um dos argumentos usados por Lula para convencer o presidente uruguaio a rever o acordo com a China foi de que o seu antecessor, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), abandonou o Mercosul e as políticas de fortalecimento da América do Sul. O petista, no entanto, disse que pretende restabelecer o tratado do bloco como forma de ampliar o comércio exterior em toda a região. 

“Essa foi a primeira de uma série de reuniões que vamos fazer daqui pela frente. Para que a gente comece a discutir profundamente as coisas que possamos acertar. Eu voltei à Presidência não apenas para resolver os problemas do Brasil, mas porque creio no multilateralismo e vou fortalecer o Mercosul, a Unasul e Celac”, completou Lula.

Presidente do Uruguai sinaliza abertura de diálogo com o Mercosul 

Após o encontro com Lula, o presidente do Uruguai, Luis Alberto Lacalle Pou, indicou que seu governo está disposto a negociar com os países do Mercosul os acordos que vinha tratando com a China. A sinalização marca uma mudança de postura de Lacalle Pou, que chegou a classificar o Mercosul como “protecionista” na véspera do encontro com Lula.

“Não brigamos, mas deixamos nossos pontos de diferenças para avançar e melhorar a relação do Brasil e do Uruguai como membros do Mercosul. Creio que estamos bem intencionados para fechar novos acordos”, disse o presidente do Uruguai.

Lacalle Pou disse que explicou ao presidente brasileiro sobre a necessidade de o Uruguai se abrir para o mundo. E que, por isso, o Mercosul precisa se atualizar. “Expliquei da necessidade de o Uruguai se abrir ao mundo. Mas não temos problemas de mostrar ao Brasil e a outros membros do Mercosul tudo que for necessário”, disse Lacalle Pou.

Segundo ele, será criado um grupo para debater com os membros do Mercosul sobre as necessidades do Uruguai junto à China. “Vamos criar uma equipe técnica para saber o que realmente queremos e necessitamos na relação com a China. Todo mundo sabe o peso econômico e demográfico do Brasil. O Uruguai tem o seu diálogo com a China e vamos negociar todos juntos. Nós pertencemos ao Mercosul. Mas queremos um Mercosul flexível, moderno e aberto para o mundo”, completou o presidente uruguaio depois do encontro com Lula.

Em contrapartida, Lula se comprometeu em debater o com os demais membros do Mercosul uma atualização do tratado do bloco, criado em 1991. Na avaliação do presidente brasileiro, é direito do Uruguai buscar ampliar os seus negócios com o mundo. “Quero dizer ao presidente Uruguai que os reclames são mais que justos, pois os interesses do presidente é defender os interesses do seu país e da sua economia e do seu povo. É justo querer produzir mais e vender mais. Por isso é importante se abrir o quanto mais possível para o mundo dos negócios”, acenou Lula.

Ainda de acordo com o petista, o objetivo nos próximos meses será o de reunir os demais representantes do bloco do Mercosul para avaliar as condições do tratado. “Quero dizer que estamos de acordo com as ideias de discutir a renovação do Mercosul. Vamos sentar com os técnicos, ministros e presidentes para que a gente possa discutir sobre o que precisamos fazer para modernizar o Mercosul”, disse Lula.

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